sábado, 26 de dezembro de 2009

Check in

Voltamos da chácara hoje cedo. Eu, o Caíque e o Flávio. Voltei porque preciso embarcar o Caíque na segunda-feira para os braços de Jean Michel e ele precisava comprar algumas últimas necessidades para a viagem. Fomos ao Shopping Eldorado. Argh, como eu odeio shoppings! Prometi mais uma vez pra mim mesma que a próxima vez que o Caíque quiser comprar algo vou levá-lo ao Itaim. Ruas cheias de lojas fazem mais sentido do que um shopping. Almoçamos por lá e deixei-o no apartamento de vovó. Não consigo dizer o meu apartamento. Será sempre o apartamento de vovó. E o Caíque ficou lá. Antes fucei o armário que fica no meu quarto de infância. Sugeri um casacão antigo de exército ao Caíque. Ele me olhou com condescendência. Odeio quando o Caíque me faz sentir ridícula. Pois deixei-o lá a arrumar as malas e fui fazer a coisa mais imbecil que alguém como eu poderia fazer. Fui com o Flávio à casa dos pais dele. Uma merda, mas fazer o que? O Flávio ficou com a minha família no interior uma semana inteira. Dona Marilu me apoquentou até que eu cedesse. Minha mãe é diplomacia em todos os seus cromossomos. Enerva um ser humano. Mas fui. Arrependimento é pouco pra definir a visita. A parentada do Flávio é um porre. Gente hipócrita e moralista. Vontade imensa de dizer à velha que só dou pro Flávio. Não quero casar com ele. Vontade de beber um caldeirão de vodka junto com os homens da casa. Mas não. Tive que ouvir aquela balela toda. Minha cabeça gritando. E o imbecil do Flávio fazendo média com o povaréu. Eu, certamente, sou uma afronta pra aquela gente. Meus trajes, meus comentários e minha postura devem ter causado uma inflamação na membrana cerebral dos presentes. Ah, Dona Marilu e seus conselhos domésticos! Saí de lá tão enfurecida comigo mesma! Como é que eu me envolvo com uma pessoa assim? Mamá não gosta que eu catalogue as pessoas. Pro inferno! Um povo medíocre. Tinha vontade de abrir a porta do carro e empurrar o Flávio pro asfalto na volta. Deixei-o na casa dele. Ah, precisava respirar o ar do mundo sem o Flávio! Cheguei ao apartamento de vovó e ouvi o Caíque balbuciando monossílabos em francês ao telefone. Coitado do Caíque. Tem imensa dificuldade com línguas. E Jean Michel não lhe dá uma canja. Outro cretino. Devíamos produzir filhos sem homens. O Caíque desligou. Ficou sentado na poltrona enquanto eu me servia de uísque. Seus braços ficaram caídos rente ao corpo. E aí, filho? Que é que teu pai disse? Nada, mãe. Ele quer que voce ligue pra ele quando me embarcar. E aí ligo pra voce quando chegar lá. Ele me disse que iremos... Não ouvi mais a voz melodiosa do Caíque. Pensei na voz de Jean Michel. Eu o havia esquecido entre batidas e cervejas durante os dias na chácara. Eu o havia esquecido nos braços do Flávio. Agora sei que ouvirei a voz anasalada de Jean Michel. Essa vida é engraçada.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Allons?

Pra falar a verdade eu estava com muita preguiça de escrever hoje. Tive um dia exaustivo ontem e uma noite extenuante. Acordei tarde com o Pinguim me lambendo a cara. Tá certo. A gente precisa de alguém pra cuidar. Que seja o Pinguim pra me lembrar que o pote da ração tá vazio ou que ele quer ir aliviar a bexiga lá fora. O Pinguim é aventureiro, claustrofóbico. Ele não gosta de mijar em casa. Comi um resto de Sucrilhos que tinha no armário. Armário vazio. Preciso passar no supermercado. Conversei meia hora com minha amiga pelo telefone. Precisava contar do Flávio. Pobre do Flávio. Pensando bem só sei o que penso dele quando ouço a mim mesma narrando nossa vida. O Flávio conseguiu sumir com todos os pregos que Jean Michel levou uma vida juntando num pote de Pringles. Como é que alguém consegue perder um pote de Pringles cheio de pregos? O Flávio tem merda na cabeça. E eu também devo ter. Ou então o Jean Michel foi um construtor enquanto o Flávio é um dilapidador. Boa definição. Minha amiga ri. A festa do Caíque foi uma faca de dois gumes. Vê-lo se apresentar no placo, piscar pra mim, procurar por mamá na platéia, confratenizar com os amigos, foi tudo lindo. Mas ter que suportar as femmes foi uma chatice das Arábias. Me dou melhor com homens. Será meu lado masculino ou meu lado puta? O Pinguim deve ter percorrido a Vila Guilherme inteira só pra dar uma mijada. À noite jantei com o Flávio. Ele queria que eu ficasse por lá, mas meu coração estava oprimido. Voltei pra casa, preparei um uísque cowboy duplo e acompanhei Cidadão Kane no cabo. Acabei pegando no sono. Acordei assustada antes do sol nascer. Acordei chamando por Jean Michel que me sorria na tarde fria de Praga carregando uma montanha de livros debaixo dos braços. Seus olhos verdes se apertavam tentando me enxergar através do fog. Liz! (meu nome saía anasalado pelo sotaque francês de Jean Michel) Liz, allons, chérie! Allons pra onde, Jean Michel? Estou no Brasil e um oceano e muita mágoa nos separam.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Caíque

Acordei com o telefone berrando. Sou totalmente contra ter um telefone na cabeceira da cama porque isso me obrigaria a atendê-lo quando estou deitada, então mantenho um aparelho na sala. Celular só ligo quando saio de casa. O que acho natural afinal só preciso de um celular quando não tenho um telefone fixo à minha disposição. Mas o telefone continuava a berrar. O que me fez pensar em que horas seriam. Abri os olhos e percebi que o Flávio já tinha saído. Verdade. Ele me disse que teria reunião cedo. O Flávio... Pensei nele e me espreguicei. O Flávio é um belo espécime masculino. Nos conhecemos há dois anos em uma festa de despedida de um amigo que partia para Londres. Ele não é definitivamente meu tipo. Sou mais ligada nesses homens intelectualizados, de bom papo. O Flávio não é nada disso e além do mais é dez anos mais novo. Mas a coisa andou e de um jeito muito próprio estamos "juntos" desde então. A coisa com o Flávio é pele porque se eu for pensar no tanto que o desaprovo já o teria mandado à merda. E o telefone gritando! Levantei, fui até a sala. Ai, Deus, os pratos e as taças ainda estão espalhados. Sapatos, garrafas, cds. O Flávio é um relaxo. E eu também. Isso não anda. Alcancei o telefone. Era o Caíque: - Mãe, tudo bem? Mãe, voce lembra da minha festa de encerramento, né? A vovó está pedindo pra te lembrar. Dona Marilu é infalível. Me acha distraída. E eu sou mesmo, mas não falharia com o Caíque. Por onde começar a ajeitar esse apartamento? Pelos cds assim escolho uma música boa e mando ver na arrumação. Preciso arrumar uma faxineira, mas detesto a idéia de ter alguém aqui dentro. Mahler. Música clássica me acalma e me põe no eixo. Preciso estar pronta para a apresentação do Caíque. Jean Michel não estará lá, óbvio! Mas o filho irá passar o Ano Novo com ele na França. O Caíque é como eu. Papá também não ia às minhas festinhas. Mas isso porque papá se foi muito cedo e não havia aviões da Air France que pudessem me levar a ele. Somente as músicas de Altamiro Carrilho e as conversas com vovó me levavam a papá. E ele nem chegou a saber que seu neto também toca flauta. Teria gostado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Karluv most

Acordei tarde. Eu podia sem a menor dúvida ter preparado meu café com aquele tapa-olhos que a American Airlines distribui em viagens noturnas, mas decidi salvar meus dedos dos pés das trombadas com as quinas dos sofás. Engoli o café preto com duas neosaldinas e nem pensei em ingerir mais nada. Tentei assistir um jornal de merda que passava na TV mas desisti. Próximo passo, banho. Faz dois meses que mudei o sistema de aquecimento desse apartamento. Foi uma das poucas mudanças que permiti que fossem feitas aqui. Gosto que ele seja como na época de vovó.Vesti uma roupa leve e abri a veneziana do quarto. A copa do ipê roxo bate no meu queixo, estou no terceiro andar. Ai, Deus, está um sol agressivo. Peguei o óculos preto. Pareço Chico Xavier com ele. Atravessei a cidade até a Vila Mariana tentando evitar pensar nesse caos automobilístico. Minha cabeça latejando. A vodka maldita de ontem. A vodka que Jean Michel me apresentou assim que chegamos em Praga. A vodka e o corpo de Jean Michel que me aqueciam nas noites frias da minha mocidade. Está sol hoje. Mas ontem à noite no apartamento de minha avó fazia frio e eu atravessava a karluv most (ponte de Carlos) sobre o rio Moldava. Ah, merde, porque isso agora? Cheguei à escola de artes, evitei o pessoal da secretaria e fui direto ao laboratório. Preparei os balcões e vesti meu avental. Organizei os produtos sobre a manta que receberia a sonolência. Os alunos foram chegando. Alguns são tão estranhos, mas evito catalogá-los. Começamos o trabalho. Foram duas horas que mal vi passarem. Dispensados, tranquei o laboratório e acomodei sonolência sobre a manta ao lado de fora sob a luz natural. Fotografei- a, a senhorita terracota. Tão bonita e de pedra. Engoli uma salada na cantina e acoplei os fones do ipod nos meus tímpanos pra evitar conversa. Abri o note e comecei a digitar ao som de John Coltrane. Ainda tenho mais duas aulas e depois toco pra Paulista. À noite me encontro com o Flávio. Preciso dar um jeito nessas unhas que estão puro terracota. Hoje expulso Jean Michel de mim.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um começo

Eu não sou da escrita, já vou avisando logo. Sou de algo mais subjetivo, as telas e a argila, seus contornos e seus formatos. Portanto não vão lá esperar de mim grandiosidades em textos. Eu leio. E dizem que quem lê bastante acaba escrevendo também. Não é o meu caso. Eu leio e aquilo que leio me povoa, me coloniza a alma. Cada leitura me deixa um algo mais que depois se transfere para a tela numa última nuance, num pingo ou num traço. Ali, nas telas, deixo minhas dores e minha angústias. Também deixo minhas alegrias, meus amores, minhas noitadas, meus excessos e minhas torturas mais íntimas. Nem sempre foi assim. Mas agora é. Minha arte, portanto, é a consequência inevitável de mim mesma. O CD de Miles Daves que toca no stereo é quem apagará as luzes desse quarto que já foi de minha avó. E a vodka no aparador é a minha companheira nas noites vazias. Amanhã, logo cedo, haverá aula de restauração. Eu gosto. Trabalhar com a pedra costuma me fazer pensar em eternidade. Penso em minha avó. Penso em papá e sua flauta ecoando nos anos da minha infância. Bobagem. Minha amiga de uma vida inteira, ressurgida no final de uma ponte de 20 anos, me disse ontem: - Dora (e só ela e Dona Marilu podem me chamar assim), esqueça essa história de pedras. Nossas histórias nós as deixamos tecidas nas vidas dos outros. Lembrou-me Jean Michel. Mas isso fica pra depois.