Acordei com o telefone berrando. Sou totalmente contra ter um telefone na cabeceira da cama porque isso me obrigaria a atendê-lo quando estou deitada, então mantenho um aparelho na sala. Celular só ligo quando saio de casa. O que acho natural afinal só preciso de um celular quando não tenho um telefone fixo à minha disposição. Mas o telefone continuava a berrar. O que me fez pensar em que horas seriam. Abri os olhos e percebi que o Flávio já tinha saído. Verdade. Ele me disse que teria reunião cedo. O Flávio... Pensei nele e me espreguicei. O Flávio é um belo espécime masculino. Nos conhecemos há dois anos em uma festa de despedida de um amigo que partia para Londres. Ele não é definitivamente meu tipo. Sou mais ligada nesses homens intelectualizados, de bom papo. O Flávio não é nada disso e além do mais é dez anos mais novo. Mas a coisa andou e de um jeito muito próprio estamos "juntos" desde então. A coisa com o Flávio é pele porque se eu for pensar no tanto que o desaprovo já o teria mandado à merda. E o telefone gritando! Levantei, fui até a sala. Ai, Deus, os pratos e as taças ainda estão espalhados. Sapatos, garrafas, cds. O Flávio é um relaxo. E eu também. Isso não anda. Alcancei o telefone. Era o Caíque: - Mãe, tudo bem? Mãe, voce lembra da minha festa de encerramento, né? A vovó está pedindo pra te lembrar. Dona Marilu é infalível. Me acha distraída. E eu sou mesmo, mas não falharia com o Caíque. Por onde começar a ajeitar esse apartamento? Pelos cds assim escolho uma música boa e mando ver na arrumação. Preciso arrumar uma faxineira, mas detesto a idéia de ter alguém aqui dentro. Mahler. Música clássica me acalma e me põe no eixo. Preciso estar pronta para a apresentação do Caíque. Jean Michel não estará lá, óbvio! Mas o filho irá passar o Ano Novo com ele na França. O Caíque é como eu. Papá também não ia às minhas festinhas. Mas isso porque papá se foi muito cedo e não havia aviões da Air France que pudessem me levar a ele. Somente as músicas de Altamiro Carrilho e as conversas com vovó me levavam a papá. E ele nem chegou a saber que seu neto também toca flauta. Teria gostado.
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