Eu não sou da escrita, já vou avisando logo. Sou de algo mais subjetivo, as telas e a argila, seus contornos e seus formatos. Portanto não vão lá esperar de mim grandiosidades em textos. Eu leio. E dizem que quem lê bastante acaba escrevendo também. Não é o meu caso. Eu leio e aquilo que leio me povoa, me coloniza a alma. Cada leitura me deixa um algo mais que depois se transfere para a tela numa última nuance, num pingo ou num traço. Ali, nas telas, deixo minhas dores e minha angústias. Também deixo minhas alegrias, meus amores, minhas noitadas, meus excessos e minhas torturas mais íntimas. Nem sempre foi assim. Mas agora é. Minha arte, portanto, é a consequência inevitável de mim mesma. O CD de Miles Daves que toca no stereo é quem apagará as luzes desse quarto que já foi de minha avó. E a vodka no aparador é a minha companheira nas noites vazias. Amanhã, logo cedo, haverá aula de restauração. Eu gosto. Trabalhar com a pedra costuma me fazer pensar em eternidade. Penso em minha avó. Penso em papá e sua flauta ecoando nos anos da minha infância. Bobagem. Minha amiga de uma vida inteira, ressurgida no final de uma ponte de 20 anos, me disse ontem: - Dora (e só ela e Dona Marilu podem me chamar assim), esqueça essa história de pedras. Nossas histórias nós as deixamos tecidas nas vidas dos outros. Lembrou-me Jean Michel. Mas isso fica pra depois.
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