quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Salut, Brésil!

Acredite quem quiser, se é que alguém me lê ainda, mas estou sentada em um cyber café em Montmartre, Paris. Tentar esclarecer tamanha mudança pra quem acompanhava esse blog é tarefa hercúlea e trabalhosa. Vou ser sucinta. Um belo dia há dois meses atrás acordei melancólica e desesperançada. O que fiz? Liguei pra Sandra porque eu preciso sempre disseminar minha tragédia pessoal. A Sandra, vale lembrar, estava consumando um amor de Penélope. E trazia dentro de si toda a perseverança do mundo. Aliás, ela sempre foi assim. A Sandra é um perfume francês. Naquele potinho consegue caber toda a esperança do mundo. E aí ela me solta a seguinte frase: Se eu fosse voce diria a Jean Michel que o ama. Olhando nos olhos. Porra, ela despertou o bicho dentro de mim. Em vinte e quatro horas levantei a grana necessária, pedi afastamento do meu trabalho, arrumei a trouxa e deixei Mamá falando sozinha. Vim buscar meu amor, vim correr atrás do tempo perdido. Relendo meus antigos textos penso que devo ter ferido demais o Flávio. O Flávio... só agora me dei conta do pobre. Sou uma péssima pessoa. Se valeu a pena minha vinda? SIM, valeu. Mas o resto fica pra próxima postagem porque Jean Michel acabou de apontar do outro lado da rua e vamos pra casa. Preciso dizer mais? Salut, Brésil!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A verdadeira fada



Quantas pessoas boas, verdadeiramente boas, voce conhece? Eu conheço poucas. Dá pra contar nos dedos de uma mão. Mamá é boa. Boa até demais. Boa que chega a dar raiva. O Fred também é. Um menino tão generoso! A mim restaram os genes malditos dessa família. Sou uma renegada, uma imbecil e cretina. Sou proveniente de outra cepa. O mais pitoresco nisso tudo é que nem sempre fui assim. Houve um outro tempo em que eu era leve, quase etérea. Hoje eu embarquei o Caíque pra que ele passe o verão com o pai. Com o pai e com a mulher que vive com o pai dele. A mulher que vai gerar o irmão do Caíque. E porque eu to aqui falando essa bosta tudo de novo nem eu sei, porque eu me propus a vir aqui pra falar de outras coisas. Eu falava de pessoas boas. Pessoas altruístas. E não pessoas que, como eu, destroem tudo o que as rodeia. Eu estou um lixo, essa é a verdade. (Me irrita muito que eu só venha aqui escrever quando estou um lixo) Cheguei em casa do aeroporto e virei dois copos de vodka pura garganta abaixo. Me sentei no sofa, acho que com pena de mim mesma. Quem sabe com saudade de mim mesma. E quando sinto saudade de mim mesma eu ligo pra Sandra. Sabe, a Sandra é minha amiga há mais de vinte anos. Ela é minha irmãzinha caçula. Ela é o Fred de saias. Aí eu liguei pra ela. Óbvio que eu a entupi de toda essa amargura que me habita. E ela me ouviu. Haja paciência. Eu francamente não sei de que mundo ela é. Porque eu atesto que não acredito em anjos. Mas a mera existência dela já refuta essa tese. Novamente eu pergunto: Quantas pessoas boas voce conhece? Eu conheço a Sandra. O mais engraçado é que antes de hoje eu nunca tinha me sentido a altura de escrever sobre ela. Eu a cito apenas porque qualquer linha que eu escreva não lhe fará justiça. Mas ela foi tão gigante comigo hoje, tão altruísta, tão gente... que fica difícil deixar passar. Não vou falar sobre nós duas. Isso ela mesma fez e muito bem feito. Leia quem quiser: http://enlluarada.blogspot.com/2009/10/reencontro.html. Só digo com grande satisfação que eu devo ter feito algo muito bom por merecê-la como amiga. Como um exemplo que NUNCA conseguirei seguir mas que aplaudo. Se ela cruzou o teu caminho, vc é um(a) felizardo(a). E certamente ela já te acolheu e te defendeu e te ouviu e te impulsionou. E o sorriso dela já iluminou o seu dia. E a fragilidade dela já te fez querer guardá-la num abraço imenso. E a força dela já te carregou pela mão. Cara, quanto eu devo a ela por me suportar e me amar. É, ela diz isso de boca cheia, sem vergonha. E vindo dela parece a coisa mais linda e natural do mundo. Quer saber, a fada aqui é ela. A fada dos sonhos de uma noite de verão de Shakespeare, apaixonada e agarrada ao seu balanço florido. E, sendo fada, ela nos acalma e nos consola e tudo ao redor fica ensolarado e nada parece perdido pra sempre. É, ter amigos vale ouro.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Amargo

É bizarro, no mínimo, voltar ao blog depois de quase cem dias. Pra ser bem sincera, reler os meus próprios textos me faz perceber até onde vai a minha instabilidade. Quando eu comecei aqui eu tava um lixo. Bebia vodka até tombar na sala. Jean Michel me povoava. Aí eu passei por aquela transformação "no fundo do poço tem uma mola" e consegui me reerguer. Contei com Mamá e com o Fred, verdadeiros heróis. Contei com minha amiga, também tão náufraga quanto eu, mas disposta a recolher meus cacos. E vivi. Pro Caíque, pro Flávio - outro herói - por Mamá. Vivi mesmo. Feito gente normal. O Caíque estudando, tocando piano, o Flávio parceirão, Dona Marilu cantarolando entre a cozinha e o quintal. Eu cheguei a curtir semanas inteiras. Dei aulas magistrais, pintei duas telas. E então na noite passada eu sonhei com uma mesa cheia de pratos. Eu comia um vepro Knedlo. Senti o sabor da carne e do molho azedo tão típico. No meu sonho alguém bebia uma lager. Acordei sem ver aquele rosto. Mas eu soube. Hoje Jean Michel ligou. O Caíque terá um irmão francês. Há um pedaço de Jean Michel se preparando pra chegar a esse mundo. E eu estou me sentindo estranha, vazia, inútil, doente. É isso. Jean Michel é minha doença. Essa doença calada e oportunista. Merde!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Estreando 2010

Passei muito tempo em Ibiúna, quase um mês. Mamá não acreditou quando o último carro voltou e eu continuava lá estendida na rede. Não disse nada, mas sei que ficou genuinamente feliz. Fomos à cidade poucas vezes porque meu estoque de cigarros acabou e os suprimentos de Dona Marilu apresentaram uma considerável baixa. Mantive o celular desligado e só o liguei pra falar com o Caíque ou com o Flávio. Enquanto isso uma equipe das boas derrubou duas paredes no apartamento de vovó e posso afirmar que agora ele tem um ar mais atual e parecido comigo. Claro que há muito de vovó também aqui, afinal preciso de referências. Providenciei os livros do Caíque e deixei pra ele a responsabilidade de escolher os cadernos. Enchi a geladeira e, não vou ser hipócrita, o bar também. Comprei a porra do plano de internet por celular. To com o saco cheio de ficar dependendo de wifi. Vasculhei a estante do meu quarto de solteira e achei uns livros que já tem destino certo. Tudo pronto pra chegada do Caíque amanhã. Saí com o Flávio. Fomos a Embu. Puta merda, eu moraria lá... Aí resolveu chover uma represa de água e nosso passeio foi pro saco. Voltamos e paramos pra tomar um café. O Flávio foi buscar umas peças na casa dele e eu estou aqui escrevendo esse texto e montando o plano semestral pra enviar pro trabalho. A verdade é que estou bem. Meio anestesiada, meio zumbi, meio estreando 2010. Por mim, por Mamá e pelo Caíque. Por uma necessidade imensa de viver.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Crescer

Voltei para casa depois de estragar o Ano Novo de todo mundo porque sou uma pessoa egoísta e idiota. A casa não cheirava a ambiente fechado e comecei a desconfiar que Mamá passou aqui enquanto eu sentia pena de mim mesma enfurnada no quarto do Caíque na casa dela. Certeza, ela passou. Tem pão, macarrão, latinhas, leite e cereais na dispensa. Potes congelados, tampas de cores diferentes no meu freezer. Bolo inglês e suco sobre o balcão da cozinha. Essa é Dona Marilu, a agente silenciosa, preocupada com sua filha quarentona que é uma imbecil. Acho que já disse isso antes, mas é informação que vale ser confirmada. E tudo porque? Porque falei com Jean Michel ao telefone. Como eu sou ridícula! Deprimida porque ouvi o tom gélido de Jean Michel, insensível à minha ansiedade adolescente por um homem que deixei ir embora quando podia tê-lo deixado ficar. Podia ter lutado por ele, mas eu não queria. E agora estou aqui em cacos, preocupando vorazmente Mamá. Nem o Caíque que tem 12 anos me preocupa como preocupei Mamá. Passei os dias na cama. Não tomei uma gota de álcool. Queria a lucidez para sofrer bastante, para me punir por toda a minha boçalidade. E quando Mamá desistiu, foi a vez do Fred. E como amo o Fred, meu irmãozinho tão querido. E depois do Fred, veio a Senhorita Profundidade, minha cunhada, tentar me levantar o astral falando em pensamento positivo e me cuspindo suas leituras de autoajuda. Vontade imensa de jogá-la escada abaixo, mas pensei no Fred. Como um menino tão sensível pode amarrar o burro numa criatura de tamanha antice? Mergulhada em minha autocomiseração estava e queria ficar. Mas minha amiga não aceitou minhas recusas, não aceitou o fato de que eu estava cansada dessa merda toda. Deixou o que estava fazendo e atravessou o mundo para chegar aqui. Não me fez perguntas nem apelos. Sentou-se ao meu lado na poltrona puída do Caíque. E ficou em silêncio junto comigo. E como sempre acontece quando estamos juntas, uma das duas rompe o silêncio soltando a frase mais desconexa. Dora, sabia que o neto do Seu Luís tem uma vinícola em Itú? Verdade? Os olhos verdes mais bonitos da Vila Gumercindo? Hum-hum. Começamos a rir. E eu comecei a chorar. E ela começou a me ouvir. E eu me senti leve como um passarinho depois que terminei. E ela me fez ir tomar banho e descer para comer. E sentamos nos balanços do quintal de Mamá que nos olhava pela janela. E ela me contou a mais triste das histórias. E perder Jean Michel para Paris não significava mais a morte. Porque, como ela mesma diz, se eu quiser posso reconquistar Jean Michel. Mas ela não pode mais nada. Nada. E então uma força inesperada brotou dentro de mim, uma vontade de abraçá-la por ter sobrevivido, por ter me reencontrado, por me mostrar como sou uma idiota infantil que precisa mergulhar dentro do espelho. Sabem qual é a minha promessa de Ano Novo? Crescer.