Passei muito tempo em Ibiúna, quase um mês. Mamá não acreditou quando o último carro voltou e eu continuava lá estendida na rede. Não disse nada, mas sei que ficou genuinamente feliz. Fomos à cidade poucas vezes porque meu estoque de cigarros acabou e os suprimentos de Dona Marilu apresentaram uma considerável baixa. Mantive o celular desligado e só o liguei pra falar com o Caíque ou com o Flávio. Enquanto isso uma equipe das boas derrubou duas paredes no apartamento de vovó e posso afirmar que agora ele tem um ar mais atual e parecido comigo. Claro que há muito de vovó também aqui, afinal preciso de referências. Providenciei os livros do Caíque e deixei pra ele a responsabilidade de escolher os cadernos. Enchi a geladeira e, não vou ser hipócrita, o bar também. Comprei a porra do plano de internet por celular. To com o saco cheio de ficar dependendo de wifi. Vasculhei a estante do meu quarto de solteira e achei uns livros que já tem destino certo. Tudo pronto pra chegada do Caíque amanhã. Saí com o Flávio. Fomos a Embu. Puta merda, eu moraria lá... Aí resolveu chover uma represa de água e nosso passeio foi pro saco. Voltamos e paramos pra tomar um café. O Flávio foi buscar umas peças na casa dele e eu estou aqui escrevendo esse texto e montando o plano semestral pra enviar pro trabalho. A verdade é que estou bem. Meio anestesiada, meio zumbi, meio estreando 2010. Por mim, por Mamá e pelo Caíque. Por uma necessidade imensa de viver.
domingo, 31 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Crescer
Voltei para casa depois de estragar o Ano Novo de todo mundo porque sou uma pessoa egoísta e idiota. A casa não cheirava a ambiente fechado e comecei a desconfiar que Mamá passou aqui enquanto eu sentia pena de mim mesma enfurnada no quarto do Caíque na casa dela. Certeza, ela passou. Tem pão, macarrão, latinhas, leite e cereais na dispensa. Potes congelados, tampas de cores diferentes no meu freezer. Bolo inglês e suco sobre o balcão da cozinha. Essa é Dona Marilu, a agente silenciosa, preocupada com sua filha quarentona que é uma imbecil. Acho que já disse isso antes, mas é informação que vale ser confirmada. E tudo porque? Porque falei com Jean Michel ao telefone. Como eu sou ridícula! Deprimida porque ouvi o tom gélido de Jean Michel, insensível à minha ansiedade adolescente por um homem que deixei ir embora quando podia tê-lo deixado ficar. Podia ter lutado por ele, mas eu não queria. E agora estou aqui em cacos, preocupando vorazmente Mamá. Nem o Caíque que tem 12 anos me preocupa como preocupei Mamá. Passei os dias na cama. Não tomei uma gota de álcool. Queria a lucidez para sofrer bastante, para me punir por toda a minha boçalidade. E quando Mamá desistiu, foi a vez do Fred. E como amo o Fred, meu irmãozinho tão querido. E depois do Fred, veio a Senhorita Profundidade, minha cunhada, tentar me levantar o astral falando em pensamento positivo e me cuspindo suas leituras de autoajuda. Vontade imensa de jogá-la escada abaixo, mas pensei no Fred. Como um menino tão sensível pode amarrar o burro numa criatura de tamanha antice? Mergulhada em minha autocomiseração estava e queria ficar. Mas minha amiga não aceitou minhas recusas, não aceitou o fato de que eu estava cansada dessa merda toda. Deixou o que estava fazendo e atravessou o mundo para chegar aqui. Não me fez perguntas nem apelos. Sentou-se ao meu lado na poltrona puída do Caíque. E ficou em silêncio junto comigo. E como sempre acontece quando estamos juntas, uma das duas rompe o silêncio soltando a frase mais desconexa. Dora, sabia que o neto do Seu Luís tem uma vinícola em Itú? Verdade? Os olhos verdes mais bonitos da Vila Gumercindo? Hum-hum. Começamos a rir. E eu comecei a chorar. E ela começou a me ouvir. E eu me senti leve como um passarinho depois que terminei. E ela me fez ir tomar banho e descer para comer. E sentamos nos balanços do quintal de Mamá que nos olhava pela janela. E ela me contou a mais triste das histórias. E perder Jean Michel para Paris não significava mais a morte. Porque, como ela mesma diz, se eu quiser posso reconquistar Jean Michel. Mas ela não pode mais nada. Nada. E então uma força inesperada brotou dentro de mim, uma vontade de abraçá-la por ter sobrevivido, por ter me reencontrado, por me mostrar como sou uma idiota infantil que precisa mergulhar dentro do espelho. Sabem qual é a minha promessa de Ano Novo? Crescer.
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