quinta-feira, 1 de março de 2012

La vie en rose

Dizem que o sossego, a paz e a tranqüilidade acabam por nos levar a um estado de espírito que permite questionamentos mais profundos e até mesmo descobertas surpreendentes a respeito de nós mesmos. Essa sou eu acordando pela primeira vez em meu dia de folga sem preocupação alguma na mente. O Caíque está na escola e acredito que por detrás de seus silêncios, meu filho esteja feliz. A felicidade do Caíque é inconclusiva, misteriosa. Nada em meu filho é simples. E como poderia ser sendo ele filho de quem é? Jean Michel está na faculdade encantando esses jovens que não compreendo e nem ouso tentar compreender. Todos eles zanzando pra lá e pra cá com seus tablets enquanto eu impregno minhas mãos de cheiro de livros. O nosso apartamento está finalmente pronto e por mais incrível que possa parecer tenho conseguido mantê-lo num estado primário de ordem que deixaria mamá orgulhosa. Anne Marie, a criatura a quem Jean Michel deu a vida, corre pelo corredor da sala cambaleante de vez em quando com seus olhos de ébano e seus cabelos escorridos. Jean Michel a adora. O Caíque também. Eu a alimento e às vezes nem creio que realmente a alimente seguindo as normas de ‘maman’ que vem escritas e coladas na bolsa de fraldas como se eu fosse uma analfabeta obtusa que não tivesse criado um filho de 14 anos. C’est la vie. É o preço por ter deixado Jean Michel às traças por uma década. Eu continuo trabalhando na livraria e cheguei a conclusão mais idiota do mundo: as artes plásticas me apaixonam mas não são páreo pra Jean Michel. Não sinto falta de ensinar. Venderia cachorro quente em Paris só pra estar ao lado dele. Ou seja, quero mais é que a carreira se foda. Os anos vão nos engolindo e estar ao lado dele é o que realmente importa. Tenho ido à feira de antiguidades de Montparnasse com minha única amiga aqui em Paris, Constance, e descobri que compraram duas telas minhas na semana passada. Voltei pra casa sentindo o vento gelado cortando meu rosto e me despedi de Constance na gare. Andei mais quatro quarteirões até avistar a janela de nosso apartamento. A luz do escritório denunciava que Jean Michel ainda trabalhava em suas teses e projetos. Sorri. Gosto de imaginá-lo sentado naquela escrivaninha que arrematamos numa barganha em 2010, cheios de sonhos e impregnados daquela sensação de recomeço. Entrei em casa após subir os seis andares de escada. Sim, ainda fujo das pessoas. Encontrei Jean Michel sentado, absorto, o Pinguim aos seus pés, enrolado, certamente cagado de frio. Pinguim, um cachorro macunaímico, brasileiro, desses que gostam de chão gelado pra se refrescar. Pobrezinho. Servi dois copos de gim e Jean Michel me sorriu. Sentei-me ao lado dele e começamos a conversar. E então a saudade do Brasil, de mamá, do Fred, de Ibiúna e de arroz e feijão foram por água abaixo. Não se pode ter tudo sempre. Então temos que nos agarrar ao que é vital, aquilo que mantém toda a estrutura em pé. E o que mantém essa minha estrutura torta e problemática em pé é ele. Fui preparar nosso jantar e enquanto punha a mesa ouvi sua voz ecoando pelo corredor: ‘Allonz, Caíque, le dejéneur est prête a manger!’ Meu filho surgiu sorrindo no final do corredor. E eu pensei: ‘Sou feliz. Sim, eu sou. A minha maneira, mas sou.’

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